Uma homenagem a José Wilker

PAULO CÉSAR CARDOSO /
colaboração ADRIANA SILVESTRINI
e FERNANDA MURO

No último dia 05, o País perdeu José Wilker, ator, diretor e produtor referência na teledramaturgia brasileira. E para homenagear esse artista tão querido pelo público e pelos seus colegas de profissão, o jornal O Retrato traz uma entrevista exclusiva realizada pela revista Em Dia em fevereiro de 2010, quando Wilker abriu as portas de sua casa para um bate-papo único, como eram todos com ele!

REVISTA EM DIA – Qual é a real importância do Oscar para a indústria cinematográfica?
JOSÉ WILKER - Eu, particularmente, acho que esta insistência por parte de determinados segmentos com relação a uma candidatura e uma eventual vitória do Brasil no Oscar é uma tolice. Um grande prêmio que o Brasil pode, deve e precisa ganhar é o de adesão do público brasileiro ao cinema brasileiro. E é isso que não há, por parte do pessoal de cinema, em fazer um tipo de filme mais maduro, um pouco mais dirigido de fato para o espectador, porque houve uma época em que nós fizemos filmes para o nosso prazer pessoal de cineastas.

EM DIA – E o fato de um filme ser indicado e não ganhar. Existe alguma coisa política por trás disso?
WILKER – Não. Na verdade a política do Oscar que orienta o eleitor é a da garantia de emprego. Os grandes filmes premiados são aqueles que proporcionaram o maior número de empregos. O eleitor do Oscar, em geral, é um eleitor de classe média, com nível e diplomação intelectual um pouco acima do razoável e muito especializado, com um conhecimento muito profundo do setor no qual trabalha. Não é exatamente um pensador de cinema, é muito mais um realizador, um operário da produção, que executou funções com extrema qualidade. Ele vota em determinado filme porque foi o que deu mais emprego.

EM DIA – E isso acontece também no caso dos filmes estrangeiros?
WILKER - Com os estrangeiros não, porque neste caso o pequeno número de eleitores que seleciona e de alguma maneira vota no filme estrangeiro aposta no quanto de qualidade e de novidade aquele filme pode trazer para a indústria, o quanto de revelador aquele filme é do país de origem, e assim por diante. Durante muitos anos as mídias se ressentiam com o fato de Frank Sinatra jamais ter vindo ao Brasil. De repente, um dia, Frank Sinatra veio. E o que mudou? Nada! Ele ganhou uma fortuna, lotou o Maracanã, mas isso não mudou rigorosamente nada. A minha sugestão é que em vez de se pensar pura e simplesmente no cinema e no Oscar, a gente pense que o grande prêmio a ser alcançado por nós deve ser a adesão desse público ao nosso produto audiovisual.

EM DIA – Há como traçar um paralelo entre o cinema e a televisão brasileira?
WILKER - O caso da televisão do Brasil é peculiar. Ela surgiu como uma fortaleza porque criou alicerces e fundamentos durante a ditadura. Foi durante a ditadura que o chamado parque de comunicação no Brasil foi montado. As antenas de captação por satélite, a possibilidade de criação de rede nacional surgiu com o ministério das comunicações. Então a tevê cresceu nesse ambiente. O pessoal que produzia cultura no Brasil se colocava contra a ditadura e enganou-se. Porque de repente recusou a televisão como veículo importante de comunicação e ficou contra ela, separado dela. E era o pessoal de cultura, literatura, cinema, pintura. Criou-se uma relação de desprezo com o veículo. Ora, o veículo é fortíssimo, é uma presença cotidiana dentro de casa, é um amigo de solitários. Esse veículo cresceu e cresceu mais ainda na medida em que as pessoas criadoras – que eram de esquerda – compreenderam a importância da televisão e aderiram a ela. A televisão mostrou para o Brasil o melhor e o pior do Brasil. Eu, quando fiz Bye Bye Brasil, achava que o Brasil ia se dividir em pelo menos quatro países. E hoje visitando o Acre, fazendo o Galvez (da minissérie Amazônia) descubro que o Brasil é um só. A gente não se deu conta de que o que a televisão produzia em termos de dramaturgia, teledramaturgia era muito melhor do que 90% do que se fazia em cinema, que alardeava uma qualidade absolutamente genial.

EM DIA – Qual foi o motivo dessa miopia?
WILKER - A gente confundiu durante muito tempo ser sectário com ser radical. Ser radical é muito importante, você toma as coisas pela raiz, segundo a definição. Mas ser sectário é você fechar os olhos para possibilidades alternativas que o seu campo de bens e o visual deveriam incorporar. Não posso decretar, por exemplo, em nome da modernidade que o romance brasileiro do José de Alencar, do Manoel de Macedo e a poesia de Gonçalves Dias sejam uma m… Porque foi a partir deles que a gente pôde produzir Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Drummond, Bandeira e assim por diante.

EM DIA – Você acha que essas novas formas de tecnologia e comercialização de mídia podem fazer com que as pessoas deixem de ir ao cinema?
WILKER - Olha, não consigo me imaginar há 40 anos. Absorvo tudo o que a modernidade proporciona para a gente. Acumulo em cada iPod que tenho (são quatro) cerca de 16 mil músicas. Tenho uns 8 ou 9 mil filmes, mas não abro mão de ir ao cinema.

EM DIA – E você acha que o público final vai ter esse comportamento também?
WILKER - Acho que tanto as salas de cinema quanto as salas de teatro são dinossauros necessários. Hoje os canais de televisão exibem, pelo menos, três ou quatro filmes por dia de curta, média e longa-metragem. E as pessoas nunca viram tanto cinema quanto se vê hoje. Então quer dizer, os novos meios estão aí à disposição. Mas acho que é preciso construir mais salas no Brasil. São Paulo é um Estado que tem quase 600 municípios. Só há cinema em 100 e o resto não tem. Nós temos um percentual altíssimo de pessoas que jamais foram a uma sala de cinema. Existe uma coisa, com relação à sala que a diferencia e a torna necessária. Assim como são necessários, digamos, os templos religiosos. Você pode achar que pode rezar melhor quando você reza no recesso do seu lar. Mas há uma contrição melhor, que é aquela que você realiza coletivamente.

EM DIA – Você declarou certa vez que não gosta das relações superficiais. Com todos esses 40 anos de tevê, você construiu muitas amizades?
WILKER - Ah sim, eu tenho sólidas amizades com o pessoal de televisão. Eu vou lhe contar uma coisa: as pessoas às vezes pensam que amizade é sinônimo de você estar constantemente ao lado. Eu acho que a melhor amizade que você deve ter é aquela de uma pessoa da qual você esteve separado por dez anos e ao reencontrá-la é como se a conversa tivesse terminado ontem. Por exemplo, eu sou amigo-irmão do Jô (Soares), do Lima Duarte, do Tony Ramos, da Vera Holtz, da Cássia Kiss, da Regina (Duarte), do Tarcísio, do Dênis Carvalho, do Otávio Muller, do Falabella, que é meu compadre, e um número notável de pessoas com as quais eu convivo mais ou menos. Mas que são pessoas com as quais eu sei que posso contar, uma coisa com mais raiz do que como o típico carioca que diz, passa lá, te convida, não passa endereço, nem hora e aí se você vai ele fica surpreso e fala ‘cara, o que você tá fazendo aqui?’

EM DIA – Qual o seu gosto para música?
WILKER - Olha, você tem de ouvir The Doors, mas eu confesso que fiquei um pouco defasado, porque essa música moderna brasileira eu abomino: o axé, o funk, mulher que requebra em cima da garrafa, essa coisa neo-sertaneja romântica, acho chato demais. Mas sou assim: ouço clássicos como Vivald, Mozart, Wagner, Bartochi, Stravinski, umas coisas de Jazz como Charlie Parker, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, ou a MPB, que adoro, assim como gosto também de Caetano e dos caras antigos como Noel Rosa, cantoras como Maria Bethânia, Adriana Calcanhoto, etc.. Gosto de Queen, Frank Willians, John McLaughlin, Miles Davis, Leonard Cohen – que acho genial -, João Gilberto, Tom Jobim, Frank Sinatra – adoro Frank Sinatra -, Janis Joplin, Bob Marley, Bob Dylan (ele mostra os CDs que estão em várias partes da sala).

EM DIA – Indique um filme brasileiro…
WILKER - Deus e o Diabo na Terra do Sol.

EM DIA – E internacional…
WILKER - Vou dizer o primeiro que me vem à cabeça: The Godfather, sobre tudo o segundo (O Poderoso Chefão 2).

Confira esta entrevista na íntegra em www.revistaemdia.com.br

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