Turquia: Sem luz no fim do túnel

*Por Jorge Mortean

Golpe de Estado na Turquia. O oitavo desde a fundação da república, em 1923, por Mustafa Kemal Atatürk. O último, ocorrido em 1997, não há tanto. Para quem já estudou o país, sabe que as forças armadas turcas são o avalista do Estado turco. Não existe absolutamente NADA sem elas, nem lances de democracia. Isso mesmo, “lances”. Pois, para um país que sofreu já 8 golpes militares de Estado desde os anos 1920, o tempo que resta foram lances. E não tão organizados assim.

E como diz Claude Raffestin, o pai da geopolítica moderna: “se as forças armadas são avalistas de um Estado, é porque o Estado, em sim, não existe institucionalmente sem elas”. O que revela, infelizmente, a fragilidade de como a república e a sociedade turcas modernas foram estruturadas.

Como todo coronelismo institucionalizado, a Turquia viu, desde a fundação da república, lutas inglórias e tentativas forçadas de se mostrar “moderna e ocidental”. Nasceu massacrando minorias étnico-religiosas, depois modificando na marra seu alfabeto, trazendo-o para caracteres latinos, abafando incessantemente manifestações de identidade curda (35% da população do país), impondo um calendário oficial cristão à uma das populações proporcionalmente mais muçulmanas do mundo (99%), coibindo vestimentas islâmicas nos edifícios públicos. E, pelo mesmo coronelismo, a corrupção nas suas forças armadas é de fazer inveja – tudo para os militares, quase nada para a população. Em nome do quê? A troco de quê? De minissaia, cerveja e discotecas na orla de Istambul? E aquela idosa que sempre se cobriu voluntariamente dos pés à cabeça, em Ancara, como e onde fica?

E a ameaça ao establishment político turco (procurem depois por “Kemalismo”) é tanta que direitos às minorias sociais são tão temidos pelos militares como o islamismo galopante. Direitos aos homossexuais, aos curdos, às mulheres, novos partidos que lhes convalidem, agitação no Parlamento, tudo isso mostra o quanto a sociedade turca, na verdade, não é representada como deveria. Para os militares, todo turco tem que ser, primeiramente, étnica e linguisticamente turco e muçulmano secular heteronormativo. Uma pasteurização social que agrada a teóricos geopolíticos radicais, que na teoria seria o perfeito cenário de um Estado estável, mas que, na prática, não se vê em lugar algum nesse Universo.

Se, ora, democracia não é só o direito de voto mas sim a ampliação da participação cidadã na construção da sua própria nação, refletindo seus reais anseios, a Turquia sempre há sido então um elefante cada vez mais feroz, amarrado à força por milhares de fios de seda.

Por essas e outras, nunca me surpreendi por ver mesquitas às moscas em Teerã e superlotadas em Ancara, cinco vezes ao dia. Nada daquilo que é imposto, é aceito, seja a religião ou o secularismo. Seja qualquer coisa que venha à força de um Estado que se diz “democrático”.

Os militares mais uma vez galgaram em Ancara; agora xingam o governo (como o fizeram nas últimas 7 vezes), lixando-se para a população, não reformam o Estado, não escutam os clamores nas ruas, garantem o seu e, quando a pressão externa compromete a segurança dessa região estratégica para o mundo, eles pulam fora e brincam de “democracia” com seus “fantoches políticos civis”. Até quando a Turquia vai continuar se perdendo?

 

* Jorge Mortean é Geógrafo formado pela USP, Mestre em Estudos Regionais do Oriente Médio pela Academia Diplomática do Irã. É Palestrante, Consultor Estratégico de Negócios entre Brasil e Oriente Médio pela Mercator Business Intelligentsia e é foi professor de Relações Internacionais da FAAP

 

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