O mundo se despede de Nelson Mandela

O ex-presidente sul-africano Nelson Mandela faleceu em sua casa, em Johannesburgo, aos 95 anos, ontem, dia 05, às 20h horário de Brasília.

Mandela ou Madiba, como é conhecido em seu país, lutava contra uma infecção pulmonar, que o levou a ser internado por três meses neste ano. Entre estabilidades e instabilidades, o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1993 não resistiu ao tratamento, seu corpo passou a não responder mais aos antibióticos, os rins pararam e a infecção se generalizou.

Prestando uma homenagem a Mandela, a equipe do jornal O Retrato buscou a colaboração de Alex Melo, idealizador da ONG Meu sonho não tem fim para escrever um texto sobre o legado de Madiba, confira!

Mandela, uma voz que não será esquecida

*ALEX MELO

“Eu sonho com o dia em que todos se levantarão e compreenderão que foram feitos para viverem como irmãos.” Esta frase mostra-nos um pouco do espírito nobre e guerreiro deste homem tão especial chamado Nelson Mandela.

Nascido em 18 de julho de 1918, em Mvezo, África do Sul, este advogado e ex-presidente é considerado o mais importante líder da África Negra e dedicou toda sua vida a serviço da humanidade. Sua batalha como advogado dos direitos humanos e prisioneiro de consciência o levaram a tornar-se o primeiro presidente da África do Sul livre. Por sua história e exemplo de vida, a ONU instituiu o Dia Internacional Nelson Mandela (dia de seu nascimento) como forma de valorizar em todo o mundo a luta pela liberdade, justiça e democracia. Uma luta que também o levou a ser o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1993.

Mandela tornou-se o mais poderoso símbolo da luta contra o regime segregacionista do Apartheid (sistema racista oficializado na África do Sul em 1948). Ainda jovem, ele se envolveu com o movimento estudantil, num boicote contra as políticas universitárias segregacionistas. Este era o início de sua jornada como jovem estudante de direito em oposição a um regime cruel e que negava aos negros (maioria da população), mestiços e indianos (uma expressiva colônia de imigrantes) direitos políticos, sociais e econômicos.

Uniu-se ao Congresso Nacional Africano (CNA) e comprometido de início apenas com atos não violentos, recorreu às armas após o massacre de Sharpeville, em março de 1960, quando a polícia sul-africana atirou em manifestantes negros pacíficos, matando 69 pessoas e ferindo outras 180. Tornou-se assim, comandante do braço armado do CNA, sendo preso em 1962 pela polícia e sentenciado a cinco anos de prisão por viajar ilegalmente ao exterior e incentivar greves. Em 1964, foi novamente condenado, desta vez a prisão perpétua por sabotagem e conspiração.

No decorrer dos 27 anos em que ficou preso, Mandela tornou-se o símbolo maior das campanhas antiapartheid em todo o mundo. Nos anos 70, ele recusou uma revisão da pena e, em 1985, não aceitou a liberdade condicional em troca de não incentivar mais a luta do CNA. Continuou na prisão até fevereiro de 1990, quando a pressão internacional conseguiu que ele fosse libertado (tinha 72 anos) por ordem do então presidente sul-africano Frederik Willem de Klerk.

Após sua libertação, como presidente do CNA (de julho de 1991 a dezembro de 1997) e primeiro presidente negro da África do Sul (de maio de 1994 a junho de 1999), Mandela comandou a transição do regime de minoria no comando, ganhando respeito internacional por sua luta em prol da reconciliação interna e externa. Após o fim do seu mandato presidencial ele voltou-se para a causa de diversas organizações sociais e de direitos humanos.

Durante o seu cárcere, Nelson Mandela escreveu inúmeras cartas que moldaram sua luta por uma África do Sul livre e igualitária. Em muitos destes textos ele avaliava que em nosso progresso como indivíduos, tendemos a nos concentrar na análise dos fatores externos como a posição social, influência, popularidade, riqueza e o nível de instrução. Para ele, era evidente que estes aspectos eram importantes para medir o sucesso nas questões materiais, e até bem compreensível que muitas pessoas se esforçassem em alcançá-los. No entanto, ele acreditava que fatores internos eram ainda mais cruciais para determinar o nosso desenvolvimento como seres humanos. A honestidade, sinceridade, simplicidade, humildade, generosidade e a prontidão para servir os outros – qualidades que estão facilmente ao alcance de qualquer criatura – formavam a base de nossa vida espiritual.

Em outras cartas ele dizia que os valores da solidariedade, que outrora estimularam a nossa demanda de uma “sociedade humana” pareciam ter sido substituídos, ou estarem ameaçados, por um materialismo grosseiro e a procura de fins sociais de gratificação instantânea. Para ele, um dos desafios do nosso tempo, sem ser beato ou moralista, era reinstalar na consciência do povo esse sentido de solidariedade humana, de estarmos no mundo uns para os outros, por causa e por meio dos outros.

A lucidez em seus comentários ia muito além dos direitos civis. Em outro de seus textos, ele analisa que os sintomas do nosso mal-estar espiritual são demasiado familiares e pessoais e que um dos seus mais trágicos resultados é a dimensão da corrupção, tanto no setor público como no setor privado, onde cargos e posições de responsabilidade são tratados como oportunidades de enriquecimento pessoal; a corrupção que ocorre no seio do sistema de justiça; a violência nas relações interpessoais e nas famílias, em particular, o vergonhoso recorde de abuso de mulheres e crianças; e a dimensão da evasão fiscal e recusa em pagar pelos serviços utilizados são alguns dos reflexos dos dias conturbados em que vivemos.

Em abril de 2000, em uma conferência na London School of Economics, em Londres, ao ser questionado sobre onde encontrava inspiração para a sua luta, Nelson Mandela respondeu:

“Minha inspiração são os homens e as mulheres que surgiram em todo o mundo e escolheram as causas sociais como o teatro das suas operações, e que lutam contra condições socioeconômicas que não promovem o avanço da humanidade, onde quer que estas ocorram. Homens e mulheres que lutam contra a supressão da voz humana, que combatem a doença, o analfabetismo, a ganância, a ignorância, a pobreza e a fome. Alguns são conhecidos, outros não. Essas são as pessoas que realmente me inspiraram.”

Como sempre dizia este homem extraordinário: “Uma boa cabeça e um bom coração formam sempre uma combinação formidável.” Certamente, sua mente genial e seu coração transbordante de amor o tornaram em uma das maiores referências para aqueles que lutam por um mundo melhor, mais justo e fraterno.

Que a paz, amor, saúde, fraternidade e felicidade estejam sempre presentes em suas vidas!

Um forte abraço.

*Alex Cardoso de Melo dedica boa parte do tempo à frente do seu projeto/ONG – Meu sonho não tem fim. A cada edição, Alex divide conosco reflexões de grandes personalidades, que como ele, sonharam com um mundo melhor.

redacao@jornaloretrato.com.br
alex@meusonhonaotemfim.org.br

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