Mesmo após redução de tarifas de transporte, manifestações continuam

NAIARA TELES,
PAMELA SCHUMAHER
E PATRÍCIA SANTANA

Frases como: “Jogaram Mentos na geração Coca-Cola” e “O Brasil mudou o status de deitado eternamente em berço esplêndido para verás que um filho teu não foge à luta”, ou ainda hashtags como #vemprarua e #acordabrasil, entre tantas outras expressões, marcaram o envolvimento intenso da população brasileira nas manifestações que invadiram as ruas do País nas últimas semanas. E desta vez não foram só os jovens que tomaram uma atitude: pais acompanhados de seus filhos pequenos, um público mais maduro e até membros da terceira idade decidiram se unir aos protestos.

Desde o início de junho passeatas foram iniciadas na Capital paulista tendo como ponto de partida o aumento de R$ 0,20 nas passagens de ônibus, trem e metrô. O manifesto foi idealizado pelo Movimento Passe Livre (MPL), que luta por um transporte público gratuito para a população.

No entanto, esse foi só o estopim para a mobilização, pois brasileiros que vivem em diversas cidades do Brasil e do mundo começaram a ir às ruas para mostrar a sua insatisfação com a realização da Copa das Confederações, da Copa do Mundo e das Olimpíadas em território brasileiro, exigir melhorias nos serviços de educação, saúde e segurança, além de se opor à corrupção, impunidade e à PEC 37 (Proposta de Emenda à Constituição que passa o poder de investigação criminal exclusivamente às polícias federais e civis retirando essa atribuição de alguns órgãos e sobretudo do Ministério Público).

Um passo para a mudança{
Os vários dias de protesto seguiram em sua maioria tranquilos, com exceção de alguns cidadãos que partiram para o vandalismo e depredaram pontos comerciais, ônibus e prédios públicos, entrando em choque com a polícia, a maioria dos manifestantes queria um ato pacífico, com o Hino Nacional cantado em coro acompanhado de gritos: “Sem partido, sem partido”, pedindo aos militantes que baixassem as bandeiras de suas legendas.

E foi em resposta à pressão da população e após reuniões com os líderes do MPL, que na noite do dia 19 de junho, quarta-feira, o governador Geraldo Alckmin e o prefeito Fernando Haddad anunciaram em entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes que as tarifas de ônibus, trem e metrô voltarão a custar R$ 3, sendo que a integração pelo Bilhete Único voltará ao valor de R$ 4,65.

Em seu pronunciamento, Alckmin afirmou dar total prioridade ao transporte público de qualidade para a população e que, além disso, tem um compromisso com a Cidade para que os temas legitimamente levantados nas manifestações possam ser debatidos com tranquilidade. Porém, declarou que para a diminuição das tarifas de trem e metrô haverá alguns cortes. “(…)Vamos ter que cortar investimentos, porque as empresas não suportam e não têm como arcar com essa diferença. Então, o tesouro paulista e o orçamento do Estado vão arcar com os custos, fazendo um ajuste na área de investimento (…)”, disse.

Já Haddad declarou que será preciso abrir a discussão sobre as consequências futuras dessa decisão que foi tomada, pois não há como fazê-la sem as dispensas do investimento. “(…)Estaremos em diálogo permanente com a população de São Paulo nas subprefeituras para que o orçamento da Cidade seja repensado à luz dessa nova realidade”, ressaltou.

Logo depois do anúncio da redução das tarifas, membros do MPL se reuniram em um bar próximo à Câmara Municipal, no centro da Cidade, para comemorar. Cerca de 40 pessoas estiveram no local. Segundo Mayara Vivian, uma das líderes do movimento, “nossos próximos objetivos são lutar pelas reformas agrária e urbana e contra o latifúndio urbano“, disse ressaltando que o grupo vai “lutar para que nenhum manifestante [que tenha sido detido] responda a processo criminal“.

Novos atos
Até o fechamento desta edição, estavam acontecendo protestos em mais de 100 cidades pelo Brasil. Na região central de São Paulo, ocorria o Sétimo grande ato contra o aumento da tarifa, que se iniciou às 17h, na Praça do Ciclista, localizada na Avenida Paulista.

Em publicação no Facebook do MPL, a passeata tinha como objetivo “além de comemorar a vitória popular, sair às ruas em solidariedade às lutas das demais cidades do País e em apoio a todos os companheiros presos, detidos e processados durante os atos contra o aumento, contra a criminalização do movimento”. O movimento já causava bloqueios nos dois sentidos da via, além da avenida 23 de Maio e paralisação de trechos de grandes rodovias, como Castello Branco, Anhanguera, Cônego Domênico Rangoni, Dutra e Rodoanel.

Em paralelo com a passeata promovida pelo MPL, ocorria outro ato batizado de Onda Vermelha, iniciado na av. Angélica. Segundo as redes sociais, esse protesto reuniu simpatizantes do PT, PCdoB, PCBR, CUT, MST, entre outros, para demonstrarem apoio ao governo de Dilma Rousseff, além de discutirem temas como a reforma política. Segundo informações do Portal Estadão, após o encontro entre manifestantes do Sétimo grande ato e militantes de partidos houve muitos confrontos, até uma bandeira do Partido dos Trabalhadores (PT) foi queimada.

Após esse tumulto, um grupo de cerca de 150 manifestantes do PT desistiu de permanecer na passeata devido a uma crescente hostilidade por parte dos cidadãos apartidários que não queriam a presença de legendas políticas durante o movimento.

Manifestações na zona Leste

Na mesma noite em que foi anunciada a redução das tarifas, as passeatas chegaram pela primeira vez à região Leste, na Avenida João XXIII até a Avenida Aricanduva, na Vila Formosa. O próximo ato será a Manifestação Pacífica pela Zona Leste, evento criado por moradores da região, via Facebook, que acontecerá no dia 21, sexta-feira, às 18h. “O ponto de encontro será na praça Silvio Romero e desceremos pela Rua Tuiuti, sentido Radial Leste, onde encontraremos outros grupos”, disse a organização da manifestação à equipe do jornal O Retrato.

Ainda de acordo com a organização do evento, “a ideia de fazer o movimento veio quando vimos que a população da zona Leste também queria se manifestar (…) não só pelos R$ 0,20. Assim como está acontecendo em outras partes da Cidade. Pedimos aos participantes que levem cartazes, nariz de palhaço, apitos, vuvuzelas, instrumentos de bateria, além de bandeiras do Brasil e do Estado de São Paulo”.

Nos últimos dias também tem se comentado nas redes sociais que haveria uma passeata saindo do Metrô Vila Prudente, porém segundo a organização do Protesto Partindo da Vila Prudente publicou em sua página no Facebook no dia 19 de junho, “por não conseguir apoio da Companhia de Engenharia de Tráfico (CET), da Polícia Militar (PM) e de um grupo de pessoas para auxiliar no caso de alguém ferido, estamos suspendendo o evento, uma vez que a tarifa foi revogada! Pedimos a compreensão de todos, para que possamos mais pra frente nos organizar para paralisarmos a zona Leste de forma construtiva à região e não de uma maneira que possa denegrir a nossa imagem!(…)

Manifestações na Mooca e Penha, que também foram citadas nas redes sociais, ainda não estavam confirmadas até o fechamento desta edição.

As vozes nas ruas marcaram a nossa história

Não é a primeira vez que o povo brasileiro vai às ruas mostrar que a voz da população pode mudar a trajetória de uma nação. Manifestações populares marcaram a história do País. Em 1964 uma multidão foi para a Marcha da família com Deus pela liberdade, que tinha o objetivo de derrubar o presidente João Goulart do Governo.

Vinte anos depois, em 1984, a campanha Diretas Já (iniciada em 1982), fez com que milhares de pessoas soltassem a voz e protestassem contra a ditadura militar, lutando pelas eleições diretas para o presidente da República no Brasil. Porém, mais uma vez e para a desilusão do povo brasileiro, o movimento não obteve sucesso e a lei não foi aprovada. Somente em 1989 ocorreriam as eleições diretas para presidente, após a lei ser instituída na Constituição de 1988.

A linha mais importante e que une todos os protestos é que o povo brasileiro aprendeu que unido é mais forte. E foi assim com a “cara e a coragem” que, em 11 de agosto de 1992, os jovens que mais tarde viriam a ser conhecidos como Caras-pintadas tomaram as ruas das capitais usando roupas pretas e com os rostos pintados como protesto à corrupção do governo do presidente Fernando Collor. No dia 29 de setembro de 1992, pela primeira vez na história da República do Brasil, um presidente, eleito pelo voto direto, foi afastado por vias democráticas.

Palavra de quem foi às ruas

Eu acho ótimo ver essa geração indo às ruas para protestar, melhor ainda que essa massa tem se mobilizado principalmente pela internet, sem a influência de partidos políticos – esses têm sido até hostilizados quando resolvem enfiar suas bandeiras no meio da multidão. Eu fiz parte da geração que foi às ruas de cara pintada, colocamos um presidente para correr, mostramos nossa força. Durante muito tempo essa atual geração se manteve paralisada, alienada, sem querer se envolver… felizmente O Gigante Despertou (frase chavão, mas perfeita para o momento). Participei sim de protestos recentes, e usei uma arma poderosa – a internet – para inflamar e cobrar uma posição de quem ainda quer se esconder (a igreja está quieta, pastores e padres têm que colocar suas ovelhas nas ruas e não pregar que isso é anarquia como alguns estão fazendo). Tive amigos que foram feridos em recentes atos pacíficos, amigos jornalistas que foram impedidos de registrar atos de opressão. Olho com pesar e tristeza quando alguns jovens se aproveitam da situação para colocar seu lado mais animalesco para fora… não temos que depredar patrimônio e é um absurdo colocarem fogo em nossa bandeira… isso não é protesto, isso é burrice. Estamos só no começo, espero que políticos tremam e aguardo ansiosamente uma resposta eficaz nas urnas, muita coisa tem que mudar… estamos só no primeiro ato!
David Castillo – redator – 37 anos – morador da Vila Formosa

Sempre apoiei manifestações que lutam por um ideal e quis fazer parte de algo que pudesse mudar o País! Tenho certeza de que mesmo com a manipulação e repressão, nós brasileiros podemos mudar tudo! Assim como em 64!
Fabiana Freire – 18 anos – estudante de moda – moradora do Tatuapé

Muitos policiais militares precisam de ônibus para locomoção. A maioria deles, com o salário injusto pago no País, deve sentir no bolso o fim do mês arrastado. Os 20 centavos fazem falta – e muita. 20 centavos para um mínimo salário, em ordem contrária, com o mesmo significado. O pão perdido. Ou a compra não feita pela conta. Faz falta. Eles não devem se sentir satisfeitos com o aumento na tarifa. Mesmo assim, têm de defender a profissão, ainda que os atrapalhe individualmente. É uma manifestação maluca: os contrários, PMs, também são a favor. São contra a decisão. São vítimas e vilões ao mesmo tempo. O governo gasta milhões em estádios que não serão mais usados. Vide Brasília, gigante elefante branco. E pede mais. Manda. Obriga. Dizem que quem tem juízo, obedece. Um bando é tido como maluco por não obedecer. Interdita ruas antes que o bolso os interdite. São presos ao carregar vinagre, que alivia o gás atirado do outro lado. O outro lado, que pode ser lido como o mesmo, em ideologia. Agora é o confronto o que marca. A luta entre cargos. Só isso. Inclusive quando se fecham avenidas e ruas da Cidade, prejudicando outros em iguais condições. Outros que não concordam com a corrupção à luz da podridão que estamos nos envolvendo. Em todos os partidos políticos. Seria, talvez, melhor que o protesto acontecesse em frente à casa dos nossos parlamentares. Não restariam críticas. São necessárias. Pode-se dizer, ao tom dos PMs, em conjunto com seus afazeres, que a luta é de um lado só. É a própria população brigando com ela mesma. E o pior é que ela mesma é quem sempre perde para a roubalheira.
Guilherme Heredia Cimatti – 22 anos – jornalista – morador da Mooca

O que me levou a participar dos protestos foi a indignação devido à corrupção em que se encontra a política brasileira. Não foi só por 20 centavos no aumento da passagem em São Paulo, isso foi apenas o estopim para que a população ficasse revoltada devido ao descaso do governo. Vivemos em uma geração sem peso na história, depois da ditadura militar não houve manifestações do povo exigindo melhoras na educação, saúde, transporte, moradia e trabalho, e, além disso, estamos cansados de pagar impostos abusivos e presenciar calados a roubalheira do governo. Por este motivo, me senti na obrigação de ir às ruas e protestar, não só pelos meus direitos, mas de todos os cidadãos. A posição do governo perante às manifestações é de resistência e repressão. Afinal, se o aumento da passagem for revogado, o povo perceberá a sua força, verá que pode sim, combater a corrupção que se instala no País durante anos. Além disso, o governador Geraldo Alckmin ordenou à polícia agir contra as manifestações em São Paulo, e em muitos dos casos as pessoas estavam apenas protestando pacificamente, sem atos de vandalismo e a polícia começou com atos de violência, para dispersar os manifestantes, que estavam apenas lutando por seus direitos”.
Ana Paula Santana – 24 anos – professora – moradora do Aricanduva

Penso que este é um momento histórico, pois é uma outra geração com novos instrumentos e um jeito de se comunicar. Estou junto, pois, lido diariamente na Internet com a juventude e percebo que há um clamor. Há o que ser dito. Eles estão dizendo. Quero dizer junto. Quero interpretar corretamente. Tenho 57 anos, portanto, sou de uma geração que foi às ruas pra conquistar o que hoje temos no que diz respeito a democracia e direitos. Sim, sempre participei. Sempre participarei e, hoje, como na segunda-feira, tive a honra de ter meus filhos ao meu lado e eu ao lado deles”.
Carlos Bregantim – 57 anos – pastor – morador do Alto da Lapa

Na verdade não consigo pensar em algum motivo para não participar. Defender nossos direitos é um dever. É muito bom saber que nossa geração não é alienada, pois nós jovens não somos mais o futuro, somos o presente!
Kae Stefanini – 22 anos – empresário – morador da Vila Prudente

O transporte é de péssima qualidade, ruim, custa muito no orçamento de qualquer família que depende dele; fora que a reivindicação do MPL é legítima e atende às diversas demandas sociais, seria a efetivação dos direitos já garantidos por lei. O transporte público deveria ser gratuito e de livre acesso não só acessível àqueles que podem pagar, assim como é o caso da saúde e educação, salvo ressalvas à qualidade desses serviços”.
Luis Claudio Silva – 24 anos – estudante – morador da Casa Verde

O que me levou às manifestações foi ver, pela primeira vez, o povo motivado e unido por algo que não era futebol, nem novela das 9, nem final de reality show. Presenciar cenas como a de mulheres com crianças batendo suas panelas nas janelas das casas da Rua Augusta; panos brancos estendidos em apartamentos na Faria Lima, enche qualquer pessoa de esperança. Outra das motivações foi ver a imprensa sofrendo repressão e uma prévia do que seria a volta da ditadura uma vez que você é impedido de ir pra rua dizer o que pensa. Sou absolutamente contra o vandalismo, mas parar vias importantes da Cidade é uma forma, sem dúvida, boa para chamar a atenção do Governo. Ver as manifestações acontecendo e pessoas pedindo por um Brasil melhor, ao invés de estarem em casa deitadas no sofá, deveria encher de orgulho até o mais frio dos brasileiros”.
Karina Andrade – 28 anos – jornalista – moradora do Tatuapé

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