Francisco, um Papa pela simplicidade

Quebrando barreiras e ultrapassando as expectativas, o argentino Jorge Mario Bergoglio tornou-se o primeiro Papa latino-americano, sendo também o primeiro não europeu na história da Igreja. Ao estar à frente do papado, Bergoglio quebra também outras tradições, pois é a primeira vez que um padre da Companhia de Jesus, congregação religiosa dos jesuítas, é eleito Papa.

Além disso, ao assumir o cargo, o padre jesuíta adotou um nome jamais utilizado na história da igreja. Francisco é uma homenagem aos santos: São Francisco de Assis e São Francisco Xavier.

No primeiro dia do seu pontificado, 14 de março, quinta-feira, o novo Papa fez uma visita privada à basílica de Santa Maria Maggiore (Santa Maria Maior), em Roma, e às 17h, rezou sua primeira missa na Capela Sistina com a presença dos 114 cardeais que participaram do Conclave. A celebração teve um tom informal, com Francisco olhando nos olhos de seus interlocutores. Em sua homilia, abordou um tema que parece servir como conclamação a uma Igreja em crise: o movimento. “O primeiro movimento é o caminhar. O segundo é o trabalho de edificar a Igreja. E o terceiro é a confissão. Caminhar, edificar, confessar”, afirmou.

No dia 19 de março, terça-feira, Bergoglio realiza a missa que marcará a sua posse como Papa. A cerimônia também coincide com o dia de São José, marido de Maria, mãe de Jesus. A presidente Dilma Rousseff aceitou o convite recebido e comparecerá ao evento.

Conclave

Desde o dia 12, terça-feira, os 115 cardeais de 50 países se reuniram para a cerimônia do Conclave. Surpreendendo a todos os espectadores, na quarta-feira, dia 13, exatamente às 15h06, uma fumaça branca sinalizou que a Igreja Católica já tinha um eleito.

A notícia deixou milhares de pessoas, que enfrentavam uma chuva fina e uma temperatura de 9ºC na Praça de São Pedro, ansiosas para conhecerem o sucessor de Bento XVI. E, após 40 minutos de tensão, o até então arcebispo Jorge Mario Bergoglio saiu na varanda da Igreja de São Pedro fazendo sua primeira aparição pública como Papa. Mostrando-se solene e carismático, falou em italiano: “Parece que meus colegas cardeais foram buscar o Papa no fim do mundo”. Ele ainda agradeceu ao Papa Emérito Bento XVI e pediu orações para seu pontificado: “Rezem por mim, e nos veremos em breve“, finalizou sob os aplausos da multidão.

Conheça o Papa Francisco

Com 76 anos, Jorge Mario Bergoglio, filho do casal italiano Regina e Mario Bergoglio, nasceu em 17 de dezembro de 1936, em Buenos Aires, na Argentina. Fluente em espanhol, italiano e alemão, é formado em engenharia química e decidiu em 1957, aos 21 anos, que seria padre. Entrou no seminário do bairro Villa Devoto, e no ano seguinte, ingressou na Companhia de Jesus, congregação religiosa dos jesuítas, fundada no século XVI. Em 1969 foi ordenado padre enquanto estudava teologia e filosofia na Faculdade de San Miguel. A partir de 1980, tornou-se reitor da faculdade, ocupando o cargo por seis anos. Em 1992, virou bispo titular de Auca e bispo auxiliar de Buenos Aires.

Já em 1998 passou a chefiar a arquidiocese de Buenos Aires. E, em 2001, foi nomeado cardeal por João Paulo II. Na Santa Sé era membro da Congregação para o Culto Divino e para a Disciplina dos Sacramentos, da Congregação para o Clero e da Congregação para os Institutos da Vida Consagrada e das Sociedades da Vida Apostólica, além de fazer parte do Conselho Pontifício para a Família e da Comissão Pontifícia para a América Latina.

No ano de 2005, quando houve o Conclave que elegeu Bento XVI, Bergoglio já era considerado papável, sendo o segundo mais votado.

Em 2010, após a aprovação da lei que permite o casamento entre homossexuais, Bergoglio foi um dos principais opositores do projeto. Mas a relação entre os Kirchner e o padre sempre foi conturbada. Principalmente com Néstor Kirchner, que o enxergava como um adversário político, pois um ano depois de assumir a presidência, ele foi criticado por Bergoglio.

Uma curiosidade sobre o Papa Francisco é o fato de gostar de tango e ser torcedor do San Lorenzo, considerado um dos cinco grandes times do futebol argentino. Outro fato interessante é que o time recebeu este nome em homenagem ao padre Lorenzo Massa, que recusou a honraria e a redirecionou à batalha de San Lorenzo, na qual os espanhóis foram derrotados por separatistas, em 1813. Além disso, o pai do pontífice foi jogador de basquete no clube.

Fontes: G1, Folha de S.P. e O Globo.


A equipe do jornal O Retrato conversou com dois padres da região,
que expuseram sua opinião sobre a escolha do novo Papa, confira:


O Retrato: O que o senhor achou da escolha no novo Papa?
Padre José: A escolha do Cardeal de Buenos Aires foi uma surpresa positiva, um nome de consenso, preparado, com responsabilidades sociais. Ele já havia sido o segundo mais votado durante o Conclave em que foi eleito Bento XVI. Por seu costume de vida simples, a escolha de um nome curto com uma dimensão, no caso Francisco, que corresponde a todos os perfis de fé, humildade e amor, seria clara. Em contrapartida, sempre teve pulso firme com fortes críticas ao governo Néstor Kirchner.

Padre Tarcísio: Achei boa no sentido de ser uma pessoa mais simples, ele escolheu o nome de Francisco, que na Igreja Católica vem acompanhado de humildade, simplicidade e amor aos pobres. Por ser latino-americano, ele também conhece mais as necessidades das igrejas daqui. Assim como no futebol, tinha uma torcida nossa muito grande pelo Dom Odilo. Mas os cardeais têm muitas conversas sigilosas, que não passam para a imprensa, tudo o que foi divulgado eram conjecturas que passaram longe da realidade.

OR: Para o senhor, o que muda na Igreja?
Padre José: Bergoglio é muito independente, conhece bem os problemas do povo e acredito que irá abordar os temas necessários. Ele é um Papa mais novo, com 76 anos, muito experiente, com boa saúde e tempo para fazer transformações e abrir caminhos para uma nova etapa.

Padre Tarcísio: Os cardeais são pessoas escolhidas de acordo com o pensamento que a Igreja tem, então, doutrinariamente falando, não há muita alteração. O que se espera é um cuidado maior com as pastorais, um zelo com a comunidade e com a justiça. Acredito que, pelo perfil dele, seja mais intenso em atividades de formar alianças com pessoas que lutam pela paz. Pelo que chegou a dizer, ele vai tirar um pouco dessa pompa de que a figura do Papa e do Vaticano têm. A impressão que tenho é que ele vai procurar o caminho da simplicidade.

OR: Qual a sua expectativa para o papado de Francisco diante do mundo e da América Latina?
Padre José: A América Latina é a região em que há mais católicos no mundo. Na prática, é muito bom por ele estar mais próximo da nossa realidade e mais atuante. Comparando com a África e a Ásia, a América Latina tem muitos jovens e o novo Papa tem bastante sensibilidade, além de um trabalho social impressionante. Acredito que, pelo fato de a Jornada Mundial da Juventude acontecer no Rio de Janeiro, e o Papa ser de origem latino-americana, poderá atrair um público ainda maior. Ao ser apresentado ao mundo após anúncio de que era o novo Papa, ele pareceu no primeiro momento ser insensível, mas diante de sua apresentação, que foi bem carismática, acredito que em um futuro próximo teremos boas surpresas.

Padre Tarcísio: As expectativas são que haja uma moralização de comportamentos e princípios, pois os valores não são só para falar deles, mas para viver. Tenho a impressão de que isso já foi trabalhado nas conversas internas deles e que o novo Papa seguirá o rumo de moralizar. Ele tem funções internacionais, até mesmo a oração que nós fazemos é por todas as igrejas. Um Papa latino-americano está sabendo das problemáticas pelas quais passamos. Acredito que nas questões de justiça social haverá um maior engajamento e essa é uma oportunidade a ser levantada por meio dele.

colaboração AMANDA LISSONI, ANGÉLICA CARDOSO PARAVELA E PATRÍCIA SANTANA

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