Consequências do uso do automóvel para a saúde e o meio ambiente

Fumaça, buzina e muito trânsito têm se tornado cada vez mais comuns na era do automóvel. É por isso que no dia 22, domingo, celebra-se o Dia Mundial sem Carro. Data esta que tem como objetivo refletir sobre os problemas causados pelo uso excessivo de automóveis como forma de deslocamento nos grandes centros urbanos, destacando-se a importância da utilização de outros meios como a bicicleta, por exemplo.

Segundo estudo realizado pela Rede Nossa São Paulo e Ibope, no dia 16 de setembro: 79% dos paulistanos que usam automóvel particular todos os dias ou quase todos os dias afirmaram que deixariam de usar o carro se houvesse boa alternativa de transporte público. A pesquisa – intitulada Dia Mundial sem Carro – revelou também que 93% dos entrevistados são favoráveis à ampliação das faixas exclusivas para ônibus, que é uma das principais ações da atual administração municipal na área de transporte. Só 5% se disseram contrários à medida.

Outro dado divulgado mostra que 69% dos paulistanos consideram ruim ou péssima a situação do trânsito na Cidade. Um dos motivos para essa avaliação negativa é encontrado na própria pesquisa: o tempo médio gasto pelas pessoas para seus deslocamentos diários pela Cidade é de 2 horas e 15 minutos.

Além de problemas com a poluição, outro fator preocupante é a saúde, prova disso é o estudo realizado pela doutora Evangelina Vormittag, especialista em patologia clínica e microbiologia, idealizadora e diretora presidente do Instituto Saúde e Sustentabilidade. Segundo o estudo, em 2011, 4.655 mortes na cidade de São Paulo foram em consequência de doenças cardiorrespiratórias e de câncer do pulmão, como resultado da poluição atmosférica, ou seja, de material particulado liberado principalmente pelos carros. O número é três vezes maior do que o de mortes causadas por acidente de trânsito (1.556) no mesmo período.

Confira o bate-papo com a profissional sobre o assunto!

O RETRATO – Qual a importância do Dia Mundial sem Carro?
EVANGELINA VORMITTAG - A data chama a atenção tanto no que tange aos aspectos ambientais, quanto socioculturais. Para o primeiro, levanta o debate sobre o impacto negativo de emissão de gases de efeito estufa e a poluição atmosférica para a saúde humana em diversos aspectos, e para o segundo, demonstra a oportunidade de repensar o uso excessivo do automóvel individual em detrimento de outros modais mais sustentáveis. Nesse sentido, é relevante frisar que, para além de ficar apenas um dia sem utilizar o carro, a data simboliza a importância deste assunto para a sociedade discutir e perceber que cada um de nós faz parte do problema. Quando levantamos a bandeira do “um dia sem carro”, estamos afirmando também que queremos mais transportes de qualidade, mais respeito a pedestres e ciclistas, mais investimentos no combate à poluição etc.. Por fim, o Dia Mundial sem Carro escancara que a solução do problema de mobilidade urbana na Cidade traz consigo a resposta para diversas outras questões relativas à qualidade de vida.

OR – O assunto é uma questão de saúde pública?
EVANGELINA - Sim. Na Cidade, os veículos são os responsáveis por 90% da emissão de poluentes. Desta forma, acarretam adoecimento e mortes. Na cidade de São Paulo, a poluição é responsável pela morte de 4.700 pessoas, e no Estado de São Paulo, 17 mil pessoas. Além disso, podemos citar uma outra questão grave de saúde pública, que são os acidentes de trânsito. Em 2011, o Brasil apresentou 41 mil mortes por acidente de trânsito e 352 mil casos de invalidez permanente, sendo que 41% das mortes ocorreram entre jovens de 18 a 34 anos. Neste mesmo ano, morreram na cidade de São Paulo 1.552 e no Estado, 7.900. Os óbitos por motocicleta no País passaram de 1.047 em 1998 para 9 mil óbitos em 2008, um aumento de 754%. Além da poluição e acidentes, o carro acarreta a imobilidade, levando ao desenvolvimento de obesidade, que por sua vez é um grande risco para as doenças cardíacas, estresse, depressão, distúrbios de ansiedade, estes últimos agravados pelo ruído.

OR – Quais impactos podem ser ocasionados ao meio ambiente?
EVANGELINA - O uso excessivo do carro acarreta uma maior emissão de diversos poluentes ao meio ambiente, tais como: NO2, CO, SO2, hidrocarbonetos, material particulado. Além disso, nas cidades, os carros são responsáveis pela emissão de 40% de gases de efeito estufa, mais especificamente o CO2. Alguns desses poluentes podem ocasionar danos à vegetação, deterioração da visibilidade e a contaminação do solo e da água. Também pode haver a contaminação do solo e dos lençóis freáticos pelo vazamento de combustíveis em postos de abastecimento. Devemos citar também a geração de resíduos proveniente do uso e manutenção do carro. Para o uso do carro há uma grande asfaltização, o que acarreta a impermeabilização do solo, contribuindo para a ocorrência de alagamentos e a formação de ilhas de calor, causando diferenças de até 8ºC de temperatura na cidade.

OR – O que podemos fazer para evitar o uso do automóvel no dia a dia?
EVANGELINA - Existem diversas propostas alternativas e sustentáveis para o uso do automóvel individual como:

* Veículos circularem com mais de dois passageiros, portanto, uma das alternativas ao impacto gerado pelo transporte individual são as caronas solidárias – que colaboram inclusive para a sociabilização, pois as pessoas passam a conhecer novos vizinhos ou colegas de trabalho.

* Mobilidade ativa: Sabe-se que a maioria das viagens são realizadas em um raio de 8 km da própria residência. Assim, a caminhada, altamente viável para pessoas que realizam trajetos menores de 3 ou 4 km, e a bicicleta, recomendada para aqueles que realizam percursos diários possíveis de serem feitos em ruas tranquilas. O transporte público pode ser uma ótima alternativa quando se mora próximo a estações de Metrô ou trem e corredores de ônibus.

Por fim, a melhor alternativa é a integração entre os modais, utilizando o melhor meio de transporte para cada situação no mesmo trajeto. Podemos citar como exemplo, um morador que vive a uma distância de 5 km da estação mais próxima de Metrô, pode ir a pé / de bicicleta / de carona até a estação, e de lá se deslocar até seu trabalho, o que diminuiria inclusive a circulação de carros nos centros e grandes vias.

OR – O que acontecerá se não forem tomadas providências urgentemente?
EVANGELINA - Segundo o relatório Perspectivas Ambientais para 2050: as consequências da inação, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD, em inglês Organization for Economic Co-opetario and Development), em relação à poluição atmosférica, se não houver a implementação de novas medidas ou políticas, a qualidade do ar continuará a se deteriorar, até que por volta de 2050, a poluição por material particulado e ozônio será a principal causa de morte relacionada ao meio ambiente.

OR – Você acredita que utilizar carros elétricos seria uma solução?
EVANGELINA - O carro elétrico é definitivamente uma alternativa interessante para colaborar na solução do problema de poluição em ambientes urbanos, no entanto, é importante destacar que ele não pode ser compreendido como a única solução para a cidade de São Paulo, pois isso não colaboraria com a melhoria da mobilidade urbana – o trânsito continuaria existindo da mesma forma. Não há espaço nas vias, temos que ocupar o espaço de carros para o transporte público e diminuir o número de carros em geral.

Opinião

Dia Mundial sem Carro

FELIPE BOTTINI*

Dia 22 de setembro é o Dia Mundial sem Carro. Mas, pra que serve esse dia? É pra comemorar o não uso ou não propriedade do carro? Para entender, vale a pena fazermos algumas reflexões. Quando o automóvel surgiu em escala industrial veio substituir as charretes e carroças e resolveu uma série de problemas de época. Um vendedor de carros daquele tempo diria a um potencial cliente: “As rodas têm pneu, o que torna o passeio confortável e sem ruído. Não empaca se não for alimentado ou estiver de mau humor. Basta andar com um galão de combustível no porta-malas. Não defeca nas ruas, de forma a assegurar o uso limpo do passeio público e evita doenças à população. É mais veloz. Quando parado não precisa ficar amarrado pra não fugir”, e por aí afora.

Tão atraente, sofisticado e confortável, o equipamento só poderia ter um destino: conquistar todos os cidadãos, que até hoje desejam ter um automóvel. Estima-se que no mundo existam hoje mais de 1 bilhão de automóveis. Aproximadamente 4% estão no Brasil. Colocados em fila, os 1 bi de carros dariam mais de 10 vezes a distância da Terra à Lua. Mas o mundo mudou… Os centros urbanos aglomeraram muita gente em espaços reduzidos e as vias são poucas pra tantos automóveis. Além de originarem gastos de recursos naturais não renováveis, são potentes fontes de emissão de poluentes e gases de estufa. A tecnologia de um motor a combustão é a mesma há quase cem anos. De toda energia que este motor gera, aproveitamos não mais que 30%. O resto é perdido por calor.

Estive pensando no uso que faço do meu automóvel. Vivo em São Paulo, a aproximadamente 7 quilômetros do meu trabalho e levo aproximadamente 45 minutos para percorrer esse trecho. Isso quer dizer que estou me locomovendo, em média, a 9,3 km/h. Uma pessoa a pé anda a 5 km/h e de bicicleta a 20 km/h. Já aconteceu, mais de uma vez, de eu levar mais de 2 horas pra chegar em casa. O mesmo caminho percorrido a pé demoraria 1h e 20 minutos e de bicicleta, 21 minutos. Eu nunca levei 21 minutos de carro pra chegar no trabalho. E trabalho no mesmo lugar há 8 anos…

Segundo a secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho de São Paulo, os prejuízos causados pelos engarrafamentos crescentes na Cidade somam R$ 52,8 bilhões por ano, o equivalente a mais de 10% do PIB municipal. E os prejuízos não são só materiais. De acordo com a secretária de Economia Verde do Estado do Rio de Janeiro, Suzana Kahn, o setor de transportes é responsável por 23% das emissões globais de gases estufa e cerca de 50% a 70% dos poluentes atmosféricos.

Aderir ao Dia Mundial sem Carro teve o efeito de me fazer refletir sobre o tema. Não sou contra os automóveis, adoro dirigir, mas já não é vantagem se locomover tão devagar na cidade. O trânsito parou em São Paulo. Logo vou aderir à moda das bicicletas e peço a gentileza de ninguém me atropelar, afinal não tenho muita experiência ainda com a magrela.

Quem tiver a disposição de deixar o carro em casa e andar de transporte público fora dos horários de pico e nos dias em que não chove, vai perceber que é bastante confortável e a cada ano de uso vai tirar da rua um carro e evitar mais de uma tonelada ao ano de emissões de carbono. Feliz Dia Mundial sem Carro!

*Felipe Bottini é economista pela USP com especialização em Sustentabilidade por Harvard. Fundador da Green Domus, da Neutralize Carbono e Consultor especial do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD.

 

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