Ciclovias às pressas

ALESSANDRO AZZONI*

Os 400 km de ciclovias prometidos pelo prefeito Fernando Haddad até o final de sua gestão, em 2015, são um ganho para a cidade de São Paulo. No entanto, questiono se a implementação dessas vias exclusivas para bicicletas é precedida por um estudo elaborado capaz de mensurar os impactos no trânsito, no comércio e na vida das pessoas dos bairros contemplados.

Eu participei da reunião do CONFEMA (Conselho do Fundo Especial do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável), que aprovou a liberação de R$ 10 milhões para a construção das ciclovias. Na ocasião, a ideia era que as novas vias exclusivas interligassem as ciclovias construídas junto aos novos empreendimentos viários da Cidade, como corredores de ônibus, novas avenidas ou mesmo o monotrilho, seguindo determinação da gestão anterior, do ex-prefeito Gilberto Kassab.

No entanto, o que vejo é que muitas vias estão sendo construídas às pressas, sem aviso prévio aos moradores e comerciantes das regiões contempladas, que acordam pela manhã com uma via vermelha pintada em frente sua casa ou seu comércio. A medida, ao que parece, serve para evitar eventuais polêmicas e protestos das pessoas afetadas, que poderiam não gostar da ideia de perder uma vaga de estacionamento diante de casa ou de sua loja. Além do mais, ainda não vejo interligação entre as ciclovias e diferentes modais de transporte, trazendo a sensação de que as vias estão sendo criadas a esmo.

O velho adágio diz que “a pressa é inimiga da perfeição”, e a velocidade com que as ciclovias estão sendo demarcadas é uma prova disso. Em uma das novas vias, na região do Paraíso, há um buraco enorme sobre o qual há uma bicicleta pintada, tornando a via uma armadilha ao ciclista, que deveria estar pedalando com segurança. Se o projeto fosse aplicado com mais cuidado, com preparação prévia da via, esse tipo de problema poderia ser evitado.

A pressa também impede que um projeto mais amplo seja implementado. Por exemplo, se hoje o ciclista tem vias para pedalar, ainda lhe falta locais de estacionamento para sua bicicleta. Ou seja: pode ir de bike ao trabalho, mas não tem onde pará-la com segurança. Se fosse pensado com mais esmero, o projeto paulistano de ciclovias poderia prever também a construção de bicicletários, como o recém-erguido na Avenida Faria Lima – este, diga-se de passagem, construído graças à pressão dos cicloativistas.

São Paulo urge por alternativas ao carro como modal de transporte e sou amplamente favorável à construção de ciclovias, assim como mais de 80% da população da Cidade, segundo pesquisa do Data Folha. Apenas questiono o modo de implementação das mesmas. Se fosse mais estruturado, a capital paulista poderia se tornar um exemplo para o Brasil e para o mundo. No entanto, se uma malha mais abrangente capaz de conectar as ciclovias entre si e aos demais meios de transporte, como ônibus e metrô, não for feita, o projeto corre o enorme risco de se tornar um tiro no pé, tornando as ciclovias não mais do que uma faixa vermelha pintada no asfalto.

* Alessandro Azzoni é consultor de meio ambiente e especialista em orçamento público. Formado em Ciências Econômicas, com pós-graduação em Mercado Financeiro Internacional na Suíça. Conselheiro reeleito do CADES (Conselho Regional de Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Cultura de Paz) Vila Mariana. Envolvido com diversas causas, é ainda coordenador da Comissão Socioambiental da Distrital Sudeste da Associação Comercial, membro do CONSEG (Conselho Comunitário de Segurança) e do Conselho dos Moradores em Situação de Rua da Vila Mariana, conselheiro do CADES Municipal pela Associação Comercial de São Paulo e do distrito sudeste.

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